quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sinal da Cruz


     Hoje, depois de entrar no ônibus que me leva ao trabalho, me dirigi a um lugar vago no fundo, o único disponível no coletivo que não ostentatava a cor amarela. O assento no meio, entre duas mulheres robustas me impedia de mover os braços, era a desculpa perfeita para não pegar o terço na mochila, terço esse que a pouco tempo era um pendulo em minha cintura, mais que um acessório, praticamente parte integrante de minhas vestes, inseparável. Agora ele jazia no fundo de minha mochila, aguardando ansioso que eu o pegasse para alisar suas contas enquanto repetia mentalmente orações a muito decoradas e que eu tinha o costume de repetir mentalmente enquanto outra parte de minha mente me lembrava dos problemas de minha vida, do meu trabalho, do bairro, da igreja e família. Mas eu não peguei o terço.
      Foi enquanto eu me enchia de motivos para não fazer nada que apareceu, passando pela roleta, um jovem que eu já havia observado algumas vezes na igreja, o via como alguém tímido, mas confiável, ele também me viu, ignorando os bancos amarelos veio ficar de pé a alguns metros de mim. Me ofereci para segurar sua mochila, não pareceu me faltar espaço para isso. Pensei em puxar um assunto, mas não encontrei um que fosse interessante o suficiente para motivar uma conversa que durasse toda a viagem, então desisti. Mas o que ví a seguir foi suficiente para me manter ocupado por toda a viagem. Com um olhar compenetrado para fora do ônibus e uma postura impecável, aquele jovem fez o sinal da cruz. Não sei se mas alguém percebeu, mas aquele gesto pareceu algo solene para ele.
      Ele não fez apenas um sinal com as mãos, ele contemplou todo o mistério da cruz. Passando por cada ponto cardeal com leveza, enquanto eu, em minhas rápidas orações costumava olhar para os lados para ter certeza que nenhum olhar reprovador me encontraria e realizava em meio segundo um sinal tosco que nem de longe lembrava uma cruz. Senti vergonha. O jovem e sua demonstração de fé foram para mim motivo de reflexão, como o soldado gigante que se vê derrubado por um menino e sua pedra, me ví ser lançado na minha falta de fé por um jovem e sua cruz.
     Entendi o recado, mentalmente iniciei a oração do terço, não sei até quando aquele gesto irá me impulsionar, mas enquanto eu tiver a imagem daquele jovem na mente irei me esforçar, para ser um cristão melhor, para orar pelas pessoas que se recomendam as minhas orações, para agradecer pelo dom da minha vida, da minha saúde, da minha família, do meu emprego e do meu namoro. Agradecer, não por eles serem perfeitos, na verdade eles estão longe disso, mas agradecer por ainda ter a oportunidade de modifica-los, algo que eu só posso fazer em vida. Eu ainda posso dizer que amo, ainda posso dizer que me importo, posso dizer "não" e explicar o motivo, posso estar presente, e isso é algo indescritível.
     Muitas vezes estamos na vida de passagem, deixando as coisas seguirem um curso ao qual dizemos estar alheios, em algumas situações até ousamos dizer que aquela é a vontade de Deus, quando na verdade nem sequer paramos por um momento para ouvir a voz do espírito que a todo instante nos fala. Deixamos o comodismo e o medo nos guiar, estagnamos nossas vidas como em um estado de torpor e um dia quando acordamos nos damos conta de ter perdido dias, meses e em muitos casos anos de nossas vidas apenas sendo levados pelas circunstâncias, tal como um pedaço de madeira, que despejado no mar se entrega à maré e passa a agir de acordo com a vontade dela, até que um dia é lançado na areia de alguma praia do mundo.
     E essa praia é um momento crucial em nossas vidas, pos é o lugar onde tudo será decidido, é o fundo do poço. A madeira pode ficar lá, inerte como sempre até que a maré suba novamente e recomece sua dança, ela pode ser enterrada lá ou pode ser encontrada pelo artesão, que com suas mãos habilidosas transforma o que não tinha valor na mais valiosa obra prima. Você pode ser como esta madeira, mas ao contrario dela você está vivo, você não precisa esperar pelo artesão, pos já foi encontrado pelo carpinteiro de Nazareth, que te chamou pelo nome e te deu uma missão, não seja mais um detrito no mar, nade contra a corrente, faça a diferença! Você pode, ou ao menos essa é a Minha Humilde Opinião,  que foi desenvolvida graças ao sinal da cruz que um jovem fez dentro do ônibus.

Ass: Bruno Santos