sábado, 3 de janeiro de 2015

Favela e Seus Complexos


     O conjunto das experiências vividas, as pessoas que conheceu, os lugares por onde passou, desenvolvem no ser humano características que iram diferenciá-lo de todos os que não viveram o mesmo. Isso é o que cria a chamada identidade regional, que faz com que pessoas de um devido local apresentem um determinado "padrão" de comportamento. Pessoas de pavio curto, que falam alto em locais públicos, falam gírias em excesso ou chingam costumam ser associados ao estereótipo de favelado. Mas se quem mora na favela é favelado, quem mora em um complexo seria o que? Complexado? Faria sentido! Acredito que ambos possuem complexos, medos e inseguranças que vão muito além do que os "moradores do asfalto" são capazes de imaginar.

     A cena do filme ''Era uma vez'' (direção de Breno Silveira, 2008), na qual um grupo chega à praia e dispersa os banhistas que lá já se encontravam, é um bom exemplo do que estou tentando dizer. A sociedade foi induzida a temer a favela e quem lá se encontra, colocando seus moradores a margem da sociedade. Em uma recente visita ao MAR (Museu de Arte do Rio) pude contemplar a bela exposição "DO VALONGO À FAVELA: Imaginário e Periferia", obras que não apenas encheram meus olhos, mas a minha mente, com fatos sobre os quais eu ainda não havia sido capaz de refletir com a devida profundidade. A história por trás do nascimento das primeiras favelas no Rio, as tentativas do governo de eliminá-las, as pessoas que viviam lá, o orgulho que elas tinham disso, a cultura que se criou ao redor de todas essas circunstâncias e o reflexo disso em tudo o que vivemos hoje. 

     Tendo crescido no bairro que hoje é mostrado nos jornais e noticiários como Complexo do Caramujo, que recentemente foi considerado o "morro" mais bem armado de Niterói, vejo como é esperado pouco dos que lá estão, fazendo com que o ingresso de um jovem de lá na faculdade seja visto com surpresa. Fico muito feliz quando vejo que um(a) amigo(a) ultrapassou essa barreira e foi capaz de vencer, com muito esforço, mesmo contra todas as estatísticas e expectativas depois de ter estudado em um colégio onde cantavam "Uh, lixeirão, entra burro e sai ladrão". O Caramujo na verdade nada mais é que um bairro localizado em uma área que constitui o chamado "mar de morros", que se caracteriza pela sucessão de vales e colinas de baixa altitude, bem como a ocupação de encostas pela escassez de áreas planas. 

         Cresci feliz, em um bairro que atendia a todas as minhas necessidades me repleto de ótimas pessoas, mas com o passar dos anos vi as coisas mudarem. Já não se podia chegar da rua a qualquer hora, não se podia ir a qualquer lugar, não se podia falar o que quisesse, em alguns momentos nem vestir o que quisesse. Eu vi locais que antes eram pontos de brincadeiras se tornarem pontos de vendas de drogas, eu vi rostos conhecidos na rua se tornarem rostos conhecidos das manchetes do Jornal São Gonçalo e O Fluminense, eu vi amigos queridos se tornarem amigos saudosos com um fim trágico.

     Mas principalmente eu vi a esperança de um povo que acredita que os bons ainda são maioria, a fé de um povo que não deixa de ir trabalhar, estudar ou orar porque o bairro está perigoso. Eu já tive vergonha de dizer onde morava, já falei que era do Fonseca, já tive que escutar "Au au au, vai descer quem mora mal" depois de voltar de um passeio do colégio, já tive que escutar minha mãe me mandando calar a boca quando eu começava a falar do bairro no meio da rua. Mas eu era feliz. Acho que para as pessoas que cresceram na mesma época em outras comunidades tem sentimentos parecidos. Bezerra da Silva, no ano de 1992 já dizia em sua música Eu sou favela a frase:

"A favela nunca foi reduto de marginal. 

Ela só tem gente humilde marginalizada,

E essa verdade não sai no jornal.

A favela é um problema social."

     Ainda não posso declarar que sou um vitorioso na vida, ainda não posso voltar no bairro onde cresci e tentar servir de exemplo para os jovens de lá, mas espero chegar a isso algum dia. Não serei um jogador de futebol reconhecido internacionalmente, um ator global e nem um astro do rock, mas um cidadão de bem, trabalhador e pai de família, espero que isso seja o suficiente. Sei que me diferencio muito da maioria deles, na forma de falar, me vestir, pensar, no gosto musical e em muitos outros aspectos, mas hoje eu tenho um respeito maior por essas diferenças. Reconheço que suas características são o resultado de sua criação e sei que isso é cultural, mas eu ainda fico triste em ver as limitações impostas a eles, tanto por eles mesmos quanto pelos outros.

     No dia 14 de julho de 2013 o pedreiro Amarildo de Souza foi assassinado por policiais da UPP da Rocinha. Ele, infelizmente, é mais um entre os muitos casos que retratam a violência contra os moradores de comunidades, que precisam suportar abusos de autoridades constantes, nos levando a não saber mais a quem devemos temer: se aos bandidos ou se a polícia. Não deveriam existir tiroteios ou operações violentas de invasão nestas comunidades, mas sim estratégias inteligentes que resultem em prisões e apreensões. Se for pra viver em um mundo onde eu posso ser baleado a qualquer instante em qualquer lugar que eu vá, então é melhor dar uma arma para cada cidadão e mandar que eles se virem... Mentira! Isso não seria melhor, mas é a impressão que se tem às vezes.

     A UPP foi uma iniciativa boa, sim, mas apenas ela não é o suficiente! Um remédio que apenas ameniza a dor não resolve o problema, é preciso tratar os sintomas. Da mesma forma, é necessário dar melhores opções de educação e lazer para os jovens, assim, o tráfico e as próprias drogas serão vistos como empecilhos e não como uma oportunidade de renda ou fuga para a felicidade. É óbvio que os jovens que entram para o tráfico sabem que terão pouco tempo de vida, mas se essa é a única chance que eles enxergam para alcançar o tal padrão que eles assistem na TV, fica difícil esperar outra atitude que não aderir ao movimento. Mas ainda existe esperança.

     Morar no morro não significa ser bandido, morar na favela não significa ser favelado, e um dia, morar no complexo não deixará ninguém complexado. Estamos prestes a eleger nosso próximo governador, que mais do que votar, nós possamos aprender a cobrar, afinal de contas, o governador nada mais é que um funcionário público que deve prestar um serviço a comunidade. Se eu tenho um empregado que ganha mais do que eu, acho que no mínimo eu vou querer que ele exerça um bom trabalho. Vamos mostrar o que nós queremos, mostrar que é o povo quem manda nesse país e que o nosso poder não termina depois do segundo turno das eleições. Sem mais, encerro essa exposição da Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

Com contribuição de: Caroline Macedo