quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Boca Suja


     Existem circunstâncias na vida em que nada é capaz de expressar o que se está sentindo. Apenas "ai" não descreve a intensidade daquela dor, apenas "muito" não é o suficiente para expressar o quanto aquilo te prejudicou, e "bom" nem chega perto de descrever aquele evento que você sabe que vai mudar sua vida para sempre. Quando as palavras de praxe não suprem a intensidade dos sentimentos, entram em cena o nosso velho e conhecido, palavrão.

     Não estou tentando justificar o uso deles, e vocês verão isso ao longo do texto, mas sejamos francos, mesmo se podando e reeducando para não falar as tais "palavras feias", para nós adultos, o ato de não pensar neles é extremamente desafiador. Isso por estarmos familiarizados com seus efeitos relaxantes e expressivos. Naquela frase que termina com um palavrão, nenhuma outra palavra encaixa da mesma forma, por mais que o sentido seja o mesmo ou até um sinônimo mais rebuscado, ele não tem o mesmo efeito sobre o nosso organismo.

     Eu fui educado desde novo para não ter palavras deste escalão em meu vocabulário, e me mantive firme nesse propósito, mesmo que durante a adolescência elas tenham entrado em erupção dentro de minha mente em maior número que as espinhas em meu rosto. Entretanto, minha curiosidade sobre essas expressões tão presentes em nosso cotidiano não deixou de existir. Eu me perguntava o que havia de tão especial nessas palavras que são capazes de nos fazer expressar sentimentos inexpressíveis, dar sentidos novos a objetos e novas interpretações de acordo com a circunstância ou entonação da voz. Durante algum tempo eu achei que o sucesso dessas palavras fosse devido a seus fonemas fortes que nos faziam vibrar a língua ou forçar os lábios, essa teoria se reforçou enquanto observava que várias crianças xingavam sem fazer ideia do que exatamente estavam dizendo de errado.

     Entretanto essa hipótese caiu por terra quando percebi que outras palavras, com os mesmos sons não tinham efeitos compatíveis, por exemplo: "Pula do Barril", " Filho já chuta ", " Porrete", "Capacete", etc. Acho que a palavra "não palavrão" que chega mais perto do efeito relaxante de um é o sobrenome Carvalho.  No fim das contas aquelas crianças só estavam repetindo o que haviam ouvido em situações que consideraram semelhantes, e não era o fato de alguém dizer que é errado que os impediria, afinal, ninguém explica o porque. Acho que talvez ninguém saiba, e eu também não sei, mas tenho uma outra explicação. 

     Acredito que nem sempre essas palavras foram mal vistas, mas passaram a ser consideradas inadequadas a partir do momento em que o sexo foi marginalizado e tido como algo obscuro, quando na verdade é algo lindo, o meio através do qual um homem e uma mulher se unem em uma só carne para ajudar Deus na criação de um novo ser humano. Isso é um momento profundo, sagrado, mas o mundanismo transformou em algo puramente erotizado, resultado, tudo ligado ao sexo passou a ser considerado impuro, assim surgiu o termo "boca suja". Se prestarmos atenção veremos que os palavrões mais populares são geralmente palavras ligadas a órgãos genitais/escretores , ameaças sobre coisas que se pode fazer com os mesmos ou ofensas sobre os progenitores de alguém, mais comumente a mãe, provavelmente devido sua fama de ser mais querida. Dessas palavras, algumas já constam nos dicionários, classificadas como gírias, de tão entranhadas que estão em nosso vocabulário.

     Pelos meus cálculos, a profissão "mais antiga do mundo" originou o primeiro palavrão do mundo, e realmente, ser filho de uma mulher que se deitava com vários homens por dinheiro não deveria ser nada agradável. Quanto a origem das ameaças a integridade do orifício circular corrugado, localizado na parte infra-lombar dos glúteos, eu acredito que tenha surgido nas cadeias, onde alguns detentos eram violentados sexualmente, posteriormente essa prática ganhou até um gesto precedente através do qual as futuras vitimas eram avisadas do estupro eminente.

     Hoje em dia o palavrão é algo tão habitual que algumas pessoas os usam para tudo, é como uma muleta vocabular, entra no buraco da frase para preencher o espaço de qualquer palavra, em certas vezes até elogios. Existe outra modalidade também conhecida como xingamento na qual não necessariamente você usa uma palavra inadequada, mas você a usa pejorativamente contra alguém. São alguns exemplos chamar uma mulher de vaca (apesar delas serem sagradas na índia), um negro de macaco (apesar de sermos todos macacos), ou um homossexual de veado (apesar dos veados serem seres que se reproduzem através do sexo entre macho e fêmea assim como qualquer outro), enfim, não faz sentido.

     Apesar da existência de toda uma história por trás do palavrão, é extremamente desagradável ouvi-lo. Não posso te julgar se você faz isso no seu círculo de amizades com pessoas que não se importam, mas tenha bom senso, ninguém merece ser estuprado mentalmente por palavras obscenas, mesmo que para você elas sejam comuns como um "bom dia". O direito de expressão se limita a expressão dos pontos de vista, mas essa, como sempre, é apenas a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos