sábado, 20 de dezembro de 2014

Voltando Para Casa (Parte I)

Postado no Facebook em:
06/12/2014

Onze e pouca da noite.
Estou voltando pra casa,
Deus sabe de onde.
Como sempre, com pressa,
Peguei o primeiro ônibus que passou
Isso significa quinze minutos a mais de caminhada.
Mas sem problemas, não tenho pressa.

Ao longo do caminho desvio das poças de lama.
Marcas indicam que vacas e porcos passearam por lá ao longo do dia.
Passo pelos bares lotados nessa sexta a noite, não vejo nada que valha apena.

Chego na área das igrejas, nessa rua serão cinco.
Sempre olho para dentro enquanto passo e tento adivinhar o pensamento dos porteiros quando me vêem, "Ovelha perdida, volte pra casa do teu pai, Ele te ama", imagino eu, na melhor das hipóteses.

Algumas estão cheias, algumas não, mas todas fazem bastante barulho.
Se aproxima um grupo de crentes na direção oposta a minha, estão felizes, eu penso se continuaram com os mesmos sorrisos ao encontrarem em suas casas os mesmos problemas que tinham quando saíram.
Será que se lembraram das palavras do pastor? Será que eles ouviram algo?

Quarto mistério, o terço em minha mão direita pede atenção, a reza que comecei ainda dentro do ônibus havia prosseguido de forma tão automática que era equivalente a não estar rezando. Mas eu continuo.

Teria sido melhor rezar pela manhã como sempre.
Mas hoje o ônibus estava tão cheio que mal pude por a mão no bolso para pegar o terço.
Ou talvez essa seja apenas mais uma das minhas desculpas para mim mesmo.

As contas vão passando por meus dedos enquanto motociclistas passam apressados pela rua, subindo e descendo.
Com a operação no Caramujo, o movimento será intenso por aqui hoje.

Todos querem se divertir.
Ultima igreja da rua, antes do ultimo bar.
Estou perto da minha rua agora, não tem nada para se ver por aqui.
Ouço os fogos que anunciam, a boca está aberta.
Termino meu terço.

Chego na minha rua.
Invoco a proteção do arcanjo Miguel.
Formas imóveis na escuridão me observam em silêncio.
Um movimento brusco pode ser meu ultimo.

Cheguei no meu portão.
Atravessei e o tranquei.
Aviso minha namorada que estou em casa com um toque de celular que ela sabe que não deve atender.

Ter orgulho de ser da favela é bonito.
Mas deve ser mais bonito quando se mora no Leblon.