sábado, 9 de maio de 2015

Um Jovem Negro

     Caminhando de volta para casa em um sábado a noite, corri para atravessar a rua tendo em vista que o sinal acabara de abrir e os carros começavam a se mover em minha direção. Para minha surpresa, fui recepcionado do outro lado por uma senhora idosa que, ao me ver, correu para se esconder atrás de um poste e com as costas contra a parede se pôs a me olhar com um terror nos olhos que me faria achar que ela estava vendo algum tipo de demônio montado nos meus ombros... mas eu sabia o que ela estava vendo: um garoto negro correndo em sua direção. Continuei caminhando, fingindo que não tinha percebido aquela reação. Trinta metros a minha frente, uma viatura ostentava suas ofuscantes luzes vermelhas com dois agentes em seu interior.
     Lembrei de uma reportagem que havia chamado minha atenção mais cedo enquanto eu lia o jornal: um homem que, durante uma abordagem policial, havia sido alvejado com um tiro na bochecha, aparentemente por estar sem documentos. Me perguntei se a alta taxa de melanina presente na pele do abordado teria alguma relação com o desfexo dessa triste história. Não pude evitar que um "E se" passasse pela minha mente e, devidamente instalado, ele tratou de se multiplicar resultando nas seguintes perguntas: E se aquela senhora tivesse a mesma reação em frente a viatura? E se eu fosse abordado? E se os policiais simplesmente não fossem com a minha cara?
     Já ví muitas mulheres apertarem as bolsas contra o peito ao me verem passar, já ví pessoas atravessarem a rua ao verem minha aproximação na direção oposta pela rua escura, já fui seguido por guardas em supermercados e revistado em lojas de departamentos. Não vou perguntar se tenho cara de bandido, pois não acho que caráter seja fisionômico. Se fosse os políticos precisariam apresentar seus históricos de cirurgias plásticas antes de se candidatarem e não precisariam abrir a boca na propaganda eleitoral, apenas se exibirem em ensaios fotográficos. Mas não é assim que funciona, somos mais do que sugere nossa aparência, somos o produto de um conjunto de fatores: sociais, econômicos, culturais, familiares, éticos e etc. Minha graduação acadêmica, profissão e fé não estão estampados na minha pele. Aquela senhora poderia estar com medo de um médico, advogado ou padre, mas ela não teve tempo para refletir sobre isso, ela estava ocupada se protegendo de um jovem negro.
     Se um neto perguntasse à essa idosa se ela tem algum tipo de preconceito provavelmente ela responderia que não, assim como  grande parte dos brasileiros, mas atos falam mais alto que respostas politicamente corretas. O Brasil tem mantido os afrodescendentes em situação desfavorável perante a sociedade a séculos. Somos a maior parte da população no país, mas temos uma representação mínima nos cargos de destaque das empresas, nos poderes legislativos, nos comerciais televisivos e novelas que não se ambientam em comunidades carentes. Fomos convencidos de que nosso cabelo duro é ruim, que nosso nariz deveria ser mais fino, que nossos olhos deveriam ser mais claros e que ser chamado de preto(a) é ofensivo. O plano dos escravistas para que o Brasil não se transforme em um Haiti continua funcionando.
     Confesso que durante alguns minutos me culpei pela reação daquela mulher de cabelos brancos. Disse para mim mesmo que deveria ter atravessado na faixa, deveria ter corrido menos, deveria ter feito a barba pela manhã, mas desisti de por a culpa em mim. Também não pus nela, afinal, tem gente sendo morta por causa de dois reais, o medo se tornou um companheiro inseparável da população. Mas, se a culpa não é dela e nem minha, de quem é? Acho que esse medo (na verdade, preconceito) foi, e continua sendo, uma construção histórica, cultural, fruto dessa nossa sociedade dividida em classes, na qual a classe dominante lucra com a marginalização e discriminação da classe dominada.  Fruto de uma sociedade que estigmatiza determinados grupos sociais, enquanto enaltece e privilegia outros. O preconceito é funcional a manutenção da nossa sociedade tal como ela é, e isso vai continuar assim para os meus filhos e netos. É triste, mas é a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

Colaboração de Caroline Macedo.