quinta-feira, 21 de maio de 2015

Biografia


     Eu sou um filho de pais separados, negro, que fez todo o ensino fundamental em colégio público, que começou a trabalhar com dezesseis anos para deixar de ser um peso e poder ajudar em casa comprando para mim aquilo que minha mãe sofria por não poder comprar. Durante o ensino médio tive dificuldades devido a discrepância no nível de ensino que encontrei no Liceu Nilo Peçanha, eu tive revisões de matérias que nunca tinha visto na vida, o que, como você deve imaginar, não ajuda muito. Nesse contexto de vida, a faculdade era, para mim, equivalente a viagem à Disney para o menino de rua, seria legal, mas não tanto quanto minha próxima refeição. Eu cogitava algumas possibilidades, mas não me prendia muito a elas, o que eu queria mesmo era terminar logo o ensino médio para poder procurar um emprego de carteira assinada.
     Depois de repetir o segundo ano eu decidi me matricular em um supletivo particular, hoje eu digo que esse é o maior arrependimento da minha vida, mas talvez eu mude de idéia um dia, ainda tenho uma vida inteira de coisas das quais poderei me arrepender, o fato é que, lá eu não aprendi nada, não fiz amigos e ainda perdi o direito às cotas para alunos de colégios públicos, que teria sido muito bem vinda digasse de passagem. Resumindo, não tive um retorno positivo do meu investimento, não que eu tenha  percebido na época. Tudo que eu sabia era que com meu comprovante de conclusão do ensino médio eu poderia procurar um emprego de carteira assinada. Foi o que eu fiz, e encontrei.
     Muitos anos depois, mais precisamente hoje, após muitas cabeçadas, cobranças, conselhos e vislumbres de perspectivas que eu não poderia ter sem viver tudo que vivi, passei a cogitar a possibilidade de cursar uma faculdade. Não tenho ainda paixão por um curso, não sonho com o exercício de uma profissão, mas me anima a idéia de ESTAR em uma faculdade, vendo líderes se formando com novos pensamentos e atitudes, percebendo as mudanças na sociedade, observando as pressões exercidas, bebendo da fonte das revoluções. Ainda tenho tantas perguntas quanto quando tinha dezesseis anos, talvez mais, só o que não tenho mais é o medo.
     O medo de perder tempo, pos hoje sei que a verdadeira perda é a que se perde sentindo o medo. Eu tinha medo de me empenhar em algo que poderia não dar certo, de me dedicar a um projeto sem um retorno garantido, de mostrar meus sentimentos e vê-los sendo usados contra mim, de ser eu mesmo durante o processo de descobrir quem eu era, medo de decepcionar quem acreditava em mim, medo de agradar quem desacreditava de mim, medo de mostrar que tinha medo, medo de acordar um dia, olhar pro passado e perceber que não fez nada de relevante e que minha passagem pelo mundo seria ignorada pelos livros escolares. Medo.
     Esse texto não tem um objetivo pré-definido, talvez ele seja apenas um desabafo ou a minha tentativa de dar algo meu para que alguém se lembre que eu existi algum dia, que tive meu jeito de ser definido por esta história de vida juntamente a outros fatores que não cabe acrescentar aqui no momento, talvez ele seja apenas um grito no meio do deserto tentando ajudar os peregrinos a vencerem suas limitações e abrirem mão de seus medos, mas quem sou eu para gritar ao outros que abandonem seus medos? Ainda tenho todos os medos que descrevi no parágrafo anterior.

Ass: Bruno Santos.