terça-feira, 5 de julho de 2016

Domingo de Manhã (Por: Caroline Macedo)


   Domingo. 7h30 da manhã. Rua deserta. Eu e meu namorado saímos juntos para uma atividade que faz parte da nossa rotina semanal. Disse rotina, o que não torna a atividade menos importante. Íamos participar da Santa Missa. 

  Ao fechar o portão percebi que minha sobrinha, que nos olhava da porta da sala, fazia repetidamente um sinal de “não” com o dedo indicador. Achei que fosse pelo fato de estarmos indo sair sem ela, depois do que aconteceu pensei que certamente era um aviso de Deus, o sinal de um livramento. 

  Depois de trancarmos o portão e darmos algumas poucas passadas pela calçada, ouvimos o barulho de uma moto se aproximando, o que rompeu o silêncio da rua e abafou o som da nossa conversa. Nela haviam dois sujeitos. Um deles começou a gritar “Passa o iPhone, passa o iPhone!!” 

   Olhei para o meu namorado e numa atitude quase involuntária comecei a tirar a bolsa do meu ombro, pensando que junto com ela não ia um iPhone, mas meu humilde MotoG2, comprado com o meu primeiro salário. Faltava pouco para eu entregar a bolsa, quando senti uma mão na minha cintura, o que me fez avançar algumas passadas. Sim, meu namorado fez isso! “Reagiu” a uma tentativa de assalto. Uma tentativa de assalto realizada por dois marmanjos desarmados, as 7h30 da manhã de um domingo, praticamente na porta da minha casa. 

  Eu nunca havia passado por uma situação capaz de me deixar em estado de pânico como esta me deixou. Se já passei, não me recordo. O fato é que mais do que em pânico, esta situação me deixou revoltada, magoada, por quase ter sido assaltada as 7h30 da manhã de um domingo, praticamente na porta da minha casa !! 

   Eu saio de casa durante a semana todo dia bem cedo para trabalhar, do trabalho vou para a Faculdade e sou liberada quase as 22h da noite. Pego  um ônibus, vou pro Terminal Rodoviário, pego outro ônibus e aí sim chego em casa. Eu imaginava que isso pudesse acontecer comigo no Centro de Niterói, no Campus da UFF ou em qualquer outro lugar. Mas jamais, jamais, quase na porta da minha casa às 7h30 da manhã de um domingo. 

   Sei que pode estar soando terrivelmente chato essa repetição de informações, mas repito para enfatizar a gravidade do fato.  

   Sou grata a Deus por naquela manhã Ele ter preservado a minha vida e a vida do meu namorado. Por Ele ter também preservado os bens materiais que conquistamos com o suor do nosso trabalho (o que não é tão importante, claro). Mas sinto muito, muito, por naquela manhã aqueles dois rapazes terem levado consigo o resquício de segurança que ainda havia em mim.

  A segurança que já senti quando ia para a Igreja, ou quando saia dela, as 23h, 00h, 6h, após uma Missa de preceito ou uma Vigília com a certeza de que chegaria bem em casa, mesmo que eu fosse sozinha. A segurança de andar pelas ruas do meu bairro, rodeada de vizinhos e gente conhecida, sem desconfianças ou receios. 

  Infelizmente não existe nada que possa nos deixar imunes a onda de violência que vem assolando a nossa Cidade. Não importa se você mora num bairro há duas semanas ou 30 anos. Não importa se você é homem ou mulher, velho ou criança, esteja sozinho ou acompanhado. Não importa se você tem um iPhone, um Motorola, Samsung ou CCE. Não importa se é manhã, tarde ou noite. Se você vai pra Missa ou pra balada. 

  Todos nós somos vítimas em potencial. Vítimas de uma sociedade que vem nos ensinando a temer sair de casa, pois não sabemos como iremos retornar. Não sabemos SE iremos retornar.

Ass: Caroline Macedo

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