sábado, 13 de junho de 2015

Minha Casa Minha Vida

     Gostaria de propor a você, leitor(a) uma suposição, necessito que você entre nessa comigo e seja meu personagem, estamos juntos? Bem, então vamos lá. Imagine-se com sua família atual, as pessoas que vivem na mesma casa que você, a menos que você viva só, nesse caso precisarei de um pouco mais da sua imaginação. Bem, estando você com esse grupo de pessoas, sejam seus pais e irmãos ou seu par romântico e filhos, etcetera, imagine-se em uma situação na qual foi extremamente necessária uma mudança, seja por questões financeiras, naturais ou de saúde, ou até mesmo tudo isso junto, a questão é que vocês precisam sair de onde moram e não possuem amigos ou parentes a quem recorrer. Até aqui tudo bem?
     Continuando essa situação hipotética você e sua família encontram um terreno desabitado que passam a ocupar, o lugar lhes possibilita o aproveitamento de oportunidades de emprego, já que fica perto da cidade, possui comércio ativo na redondeza e uma vizinhança humilde que como os seus, quer apenas viver com dignidade. Os anos passam, a vida se ajeita, aos poucos as casas rústicas de madeira se tornam de alvenaria, as crianças são matriculadas em colégios, as cartas chegam no endereço com normalidade, os móveis são entregues pelas lojas e a vida vai se desenvolvendo. Até que, em um belo e ensolarado dia do mês de maio, ao acordar para cumprir com suas tarefas corriqueiras você se depara com uma movimentação incomum na rua, tenta descobrir do que se trata e recebe a notícia de que o dono do terreno onde você vive a anos achou uma utilidade para ele e a sua casa será posta abaixo por operários mal encarados e impacientes que preferiam ter demolido tudo de uma vez, de preferência com todos dentro para não ter que passar pela situação que lhe é apresentada no momento. Você se apressa para retirar o máximo de coisas possíveis lá de dentro, mas precisa assistir enquanto seus sonhos de viver com dignidade são destroçados por máquinas pesadas.
     Essa situação, que lhe foi proposta como hipotética, parece real até demais para os moradores da comunidade do Metrô-Mangueira, que surgiu em meados da década de 80 como ocupação espontânea dos operários que, atuando na linha dois do metrô, não tinham para onde voltar após o trabalho. Essas moradias foram derrubadas para dar lugar a estruturas que serão usadas por estrangeiros durante as Olimpíadas de 2016, pessoas que vão ficar aqui por alguns dias deixando para trás o dinheiro de seu turismo. Mas, será que esses dias de turismo darão mais lucro que uma vida inteira de impostos pagos desde o nascimento por um brasileiro? Será que esses atletas são realmente mais merecedores deste espaço que os moradores? As pessoas que virão fazer turismo no Rio em 2016 serão informadas desses estragos ou tudo continuará sendo posto para debaixo do tapete para que o estado siga sendo mostrado como o cartão postal que não é?
     Não que o estado do Rio não seja um lugar lindo, seja pelas suas praias, pelos resquícios de Mata Atlântica que ainda luta contra o concreto ou até mesmo pelas construções imperiais em seu centro histórico, que dicasse de passagem foram construídas sobre os destroços de curtiços que ocupavam o centro da cidade em circunstâncias bem parecidas com as do Metrô-Mangueira. O que não é bonito é que as centenas de fiscais da defesa civil, bombeiros, engenheiros e acessores vejam alguém montando um barraco em um terreno baldio e não pensem em notificar o dono do mesmo ou a prefeitura. Que depois de anos por lá, já pagando água, luz e telefone essas pessoas sejam humilhadas como foras da lei e massacradas por um poder que nos últimos anos pareceu não se importar com o que ela fazia ou deixava de fazer.
     Uso aqui o exemplo do Morro do Bumba que foi a baixo com as chuvas, matando e desabrigando várias pessoas em Niterói. Gerações que viviam lá sem seren encomodadas, mas que foram culpadas pelos orgãos públicos por terem ocupado uma área instável que anteriormente foi um lixão. Acredito que o prefeito já sabia o que tinha lá embaixo, sabia que o terreno poderia ceder um dia, mas deixou que casas fossem construídas. Por que arriscar as vidas dessas famílias, das quais muitas até hoje não tiveram apoio para encontrar uma moradia definitiva? Existem 515 mil famílias sem moradia no Estado do Rio de Janeiro, 220 mil só na cidade do Rio, pessoas invisíveis para o Governador do Estado, porque ele vai trabalhar de helicóptero, porque ele não pedala na orla da Lagoa e nem precisa pegar um ônibus no Jardim Botânico. Mas existem pessoas tentando sobreviver a mercê de uma sociedade que não as reconhece como iguais.
     Vítimas? Das circunstâncias, da falta de recursos, da falta de apoio,do preconceito, do descaso e Deus sabe de mais o que. Muitas dessas pessoas já passaram por abrigos, mas foram convidadas a se retirarem ou preferiram voltar para as ruas. Algo não está certo. Existem membros da classe média recebendo bolsa família e comprando apartamento pelo Minha Casa Minha Vida pra fazer especulação imobiliária, enquanto o povo que precisa está tendo a casa demolida. Essa é a política de moradia desse governo e essa é a cara do Rio que os "gringos" não querem fotografar, talvez eles devessem, a seleção alemã fez mais pelo Brasil durante a copa do que quatro anos de governo da Dilma, poderíamos fazer uma campanha #voltaalemanha, assim um evento mundial finalmente daria algum retorno real para o povo ao invéz do prejuizo que tem sido até agora, mas essa é apenas a Minha Humilde Opinião.

ASS: Bruno Santos.

Fonte: Jornal Brasil de Fato 3-10/6/2015