terça-feira, 14 de julho de 2015

A Invasão


     Elas estão por todos os lados, são rápidas, leves, não respeitam as leis de trânsito e se multiplicam a cada dia. Descrição de uma invasão? Sim, mas as coisas não são tão ruins quanto parecem. Na minha época elas eram o pedido unânime em todas as listas de natal, aniversário e dia das crianças. Um "brinquedo" unissex para variar, em um tempo em que meninos jogavam bola, meninas brincavam de casinha. As vezes os grupos se uniam em prol de um pique de qualidade, fosse o pega, esconde ou parede, mas não tinha nada melhor que sair pelo portão depois da sessão da tarde (quando o sol estava mais baixo) para poder ir até o final da rua e voltar até a frente do portão encima de uma bicicleta, aquilo era ser feliz.
     Só que agora a coisa ficou séria, não estamos mais falando de um brinquedo, mas de um meio de transporte, talvez o mais usado no mundo, no Brasil já são sessenta milhões em uso, a maioria é usada para ida e volta do trabalho por pessoas, ou que moram perto de seus trabalhos, ou que cansaram de perder horas no trânsito gastando combustível e vendo suas vidas passarem pelos espelhos retrovisores. Obviamente não damos aos nossos ciclistas o mesmo incentivo ou a mesma estrutura que existe em outros países, como por exemplo a França onde funcionários recebem 25 centavos de euro por quilometro percorrido de bicicleta no percurso trabalho-casa (e só para registrar, em Paris existem ciclovias desde 1862), ou na Alemanha onde o governo pretende trocar carros e caminhões por bicicletas de carga a fim de diminuir os congestionamentos e níveis de poluição, ou ainda como no Reino Unido onde foi criado um programa chamado Cycle to Work que da descontos nos impostos de quem usa a bicicleta para ir trabalhar.
     No Brasil, as bicicletas tem em seu valor de mercado 40,5% só de impostos, para compararmos, sobre o preço final de um carro a mesma taxa é de 32%, parece que querem compensar o preço do combustível que NÃO será consumido. Dessa forma a magrela levará mais pessoas à falência, sim, pois o homem que registrou sua patente em 12 de Janeiro de 1818, o Barão Drais, foi ridicularizado na sociedade Parisiense e se tornou um falido. Talvez tenha sido um castigo por se apropriar do que não lhe pertencia, já que Leonardo Da Vinci já tinha esquematizado em desenhos protótipos bem rústicos desse velocípede (do latim, velocidade movida a pé).
     A questão é que mesmo já fazendo parte do cotidiano, a bicicleta ainda está buscando autoafirmação em meio a uma cidade que parece ter sido feita mais para carros que para pessoas. Só entende isso quem já sentiu o vento que um ônibus faz quando passa a meio metro do guidom, quem foi xingado depois de quase ser atropelado por alguém que está protegido por centenas de quilos de metal e um cinto de segurança sendo apenas um corpo em um quadro de alumínio ou quem teve que sair da ciclofaixa para desviar de alguém que confundiu aquela linha vermelha no chão com um estacionamento. Eu entendo, pois já passei por tudo isso essa semana, e ainda é terça.
     Mas, tem outras coisas que eu também já fiz, como andar na contramão, sobre a calçada, atravessar cruzamentos, faixas de pedestres e outras coisas que não me lembro agora, mas, sobre as quais eu não poderei ser responsabilizado, até porque as bicicletas não tem placa, então, onde vão me achar? Só que isso tem seu lado ruim, por exemplo, quando ela é roubada é a sua bicicleta vira só mais uma em meio a milhares dentro de um depósito. Eu ando de bicicleta, não por me preocupar com o meio ambiente ou querer ficar em forma, não que eu não tenha essas preocupações, só não foram os motivos determinantes, o estopim que me fez entrar com tudo nesse mundo de selins e guidões foi o exorbitante preço da passagem de ônibus, eu tenho esse direito, e gostaria que mais pessoas enxergassem essa possibilidade para suas vidas, não ficar mais esperando ônibus para viajar de pé, no calor, sendo espremido por pessoas com conceitos duvidosos de higiene e ainda pagando caro por isso. Bicicleta é liberdade, é autonomia e de quebra ajuda mesmo quem não usa. Um carro a menos no congestionamento, uma pessoa de pé a menos para aquecer o ônibus e um ar mais respirável.
     Do meu ponto de vista o ciclismo é um bom caminho a ser seguido, e deveria receber mais apoio, mais ciclovias que não desapareçam no meio do caminho te deixando desamparado em meio ao fluxo intenso, mais bicicletários que fiquem perto de uma sombra, são poucos, e principalmente mais conscientização para que NÓS, que pedalamos, aprendamos que precisamos nos manter no lado direito das vias, no sentido do fluxo, usando equipamentos de segurança e sinalizando nossos movimentos. Assim todos sairão ganhando, quem pedala e quem não, mas essa é apenas a Minha Humilde Opinião.
   
Ass: Bruno Santos