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sábado, 14 de novembro de 2015

Voltando Para Casa - Parte III (ou Pó, Maconha e Haxixe!)

    Mais uma vez estou voltando para casa. Não para a mesma casa, mas ainda para um lugar esquecido pelas autoridades (in)competentes que só se lembram que os pobres existem quando estes matam ou são mortos. Morrer garante um ano na memória popular, matar garante uma manchete e com "sorte" umas citações vez ou outra.
    No caminho vou no contra-fluxo da multidão, são universitários, trabalhadores e universitários/trabalhadores em sua maioria, voltando para suas casas depois de um dia produtivo. Tiro as chaves do bolso um quarteirão antes da minha rua, parecer um morador é imprescindível, pois meu rosto ainda é pouco conhecido. Ao chegar no pé da escadaria ouço uma pergunta sendo gritada do alto do morro: "Pó, maconha ou haxixe?". Subo de cabeça baixa sem fazer movimentos bruscos e ignorando o que ouvi. Ao atravessar o portão percebo que o vendedor não desanima e segue oferecendo seus produtos a quem quer que passe: "Pó, pó, pó! Pó, maconha e haxixeeee!" ele grita, como um camelô qualquer em seu ponto de venda.
    Me sinto sortudo por não precisar passar perto dele para chegar em casa, mas admito minha curiosidade. Gostaria de ser invisível (ou mais corajoso) por alguns minutos para passar entre aqueles jovens e olhar atentamente o rosto de cada um. Queria saber que idade eles têm, suas aparências e o que sonham.
   Quando finalmente pisei dentro de casa, comecei a me questionar: Esse "mercado a céu aberto" é muito diferente dos leilões de escravos, que há 250 anos os ofereciam nas praças públicas como uma mercadoria? Ou seria essa apenas uma continuação daquela cena? Não seriam esses jovens bisnetos e tataranetos daqueles escravos que, ao serem “libertos” em 1888, acabaram vendo-se presos a uma situação de extrema pobreza, abandono e preconceito de uma sociedade que se negava a pagar pelo trabalho de alguém que a alguns anos nem gente era? Não seriam esses jovens a descendência daquele povo de pele escura que em busca de um pedaço de chão para chamar de seu subiu os morros? Jovens herdeiros do analfabetismo, do medo e do sentimento de inferioridade, que agora encontram no tráfico uma oportunidade de alcançarem os padrões de vida inalcançáveis que a novela das nove mostra. Menores infratores que querem ter as roupas de marca, o celular, o tênis e a pele branca do garoto de classe média que faz cooper no "calçadão" de Icaraí. Alguns dizem: "Mas se ele trabalhar e juntar dinheiro ele vai poder comprar ", "Também existe branco pobre e bandido, isso não é desculpa" ou ainda "Brancos e negros têm a mesma capacidade intelectual, se o garoto negro e pobre estudar e o branco não, o negro passará no vestibular e o branco não".
    Respeito os argumentos, mas não preciso concordar, até porque os dados não concordam e, segundo os dados, 54,9% da população do Brasil é parda ou negra e, mesmo assim, apenas 8,8% dos graduados em curso superior são negros. Querem que eu acredite que os outros negros são preguiçosos e não tiveram força de vontade para estudar? Certo! Eu vou dizer o que eles NÃO tiveram: uma escola que os ajudasse a desenvolver seu potencial, merenda, professores bem remunerados (que não precisassem fazer greve) e, principalmente, eles não tiveram fé em sí mesmos.
     Que as favelas são as atuais senzalas, não é difícil perceber, afinal, de onde vem a mão de obra que enriquece os burgueses, donos dos meios de produção? E o que é o tráfico se não uma armadilha fantasiada de quilombo, que promete liberdade, mas acaba aprisionando mais? Promete aos jovens dinheiro e poder, mas os faz reféns das comunidades, do onde não podem sair se não presos ou ensacados.
     E enquanto isso os porteiros, motoristas de ônibus, PMs, vendedores de água e lixeiros, moradores de comunidades e de bairros pobres, garantem a manutenção da qualidade de vida dos empresários, juízes e deputados, esperam pelas migalhas que o governo mandará para poderem subsistir. Seriam então as cotas raciais a solução definitiva para a desigualdade na educação brasileira? De forma alguma, mas é melhor do que nada! Porque tem sido a forma de inserir os negros em um serviço público ao qual eles não estavam tendo acesso. Jovens infratores devem ficar sem punição por seu crimes? Claro que não! Mas não seria mais lógico olhar para esses jovens, dando-lhes o auxílio necessário, antes que eles entrassem para a vida do crime? E, se entrarem, que a intenção das instituições  não seja punir por punir e sim educar, dar uma nova perspectiva, mostrar que existem outras opções e que elas são alcançáveis.
     Aquele jovem na boca de fumo poderia ser eu, se eu não tivesse recebido de minha família (porque do governo não recebi nada!) todo o incentivo e estrutura necessários. Se eu não tivesse visto tantos jovens morrerem e percebido que essa vida de crime não valia a pena. Se eu não tivesse recebido uma formação cristã que me ensina a fugir de tudo aquilo que me aprisiona e que a verdadeira liberdade eu só encontro em Jesus. Mas, quando eu vejo (ou ouço) um traficante e me omito de meu papel de mostrar para ele que existe um outro caminho, que tipo de cristão eu estou sendo? Quando vejo um mendigo e atravesso a rua, eu estou sendo mais humano que ele? Quando vejo um grupo de jovens negros e acredito que eles sejam dignos do meu medo, que tipo de pessoa eu sou? Sou fruto daquilo que a sociedade me ensina. Eu, um negro, que aprendi desde pequeno que os negros nas novelas constituem sempre o núcleo pobre, são perigosos, de cabelo “duro” e nariz largo demais.
    Eu, que durante uma parte da infância, ao ouvir a típica pergunta: "O que você quer ser quando crescer?" cheguei a responder algumas vezes "Branco". Agora busco uma metanóia que me ajude a me libertar das imposições sociais e esteriótipos desse país. Tento vencer pelo meu próprio esforço (deixando bem claro que não defendo a meritocracia), contrariando as estatísticas. Tento ser um jovem negro, universitário que não estará entre os outros negros que são 77% das vítimas de homicídio. E enquanto isso, aquele jovem continuará no topo da escadaria, esperando os filhos dos empresários, juízes e deputados que sobem o morro para comprarem pó. “Pó, maconha e haxixe."
Ass: Bruno Santos
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sábado, 3 de janeiro de 2015

Favela e Seus Complexos


     O conjunto das experiências vividas, as pessoas que conheceu, os lugares por onde passou, desenvolvem no ser humano características que iram diferenciá-lo de todos os que não viveram o mesmo. Isso é o que cria a chamada identidade regional, que faz com que pessoas de um devido local apresentem um determinado "padrão" de comportamento. Pessoas de pavio curto, que falam alto em locais públicos, falam gírias em excesso ou chingam costumam ser associados ao estereótipo de favelado. Mas se quem mora na favela é favelado, quem mora em um complexo seria o que? Complexado? Faria sentido! Acredito que ambos possuem complexos, medos e inseguranças que vão muito além do que os "moradores do asfalto" são capazes de imaginar.

     A cena do filme ''Era uma vez'' (direção de Breno Silveira, 2008), na qual um grupo chega à praia e dispersa os banhistas que lá já se encontravam, é um bom exemplo do que estou tentando dizer. A sociedade foi induzida a temer a favela e quem lá se encontra, colocando seus moradores a margem da sociedade. Em uma recente visita ao MAR (Museu de Arte do Rio) pude contemplar a bela exposição "DO VALONGO À FAVELA: Imaginário e Periferia", obras que não apenas encheram meus olhos, mas a minha mente, com fatos sobre os quais eu ainda não havia sido capaz de refletir com a devida profundidade. A história por trás do nascimento das primeiras favelas no Rio, as tentativas do governo de eliminá-las, as pessoas que viviam lá, o orgulho que elas tinham disso, a cultura que se criou ao redor de todas essas circunstâncias e o reflexo disso em tudo o que vivemos hoje. 

     Tendo crescido no bairro que hoje é mostrado nos jornais e noticiários como Complexo do Caramujo, que recentemente foi considerado o "morro" mais bem armado de Niterói, vejo como é esperado pouco dos que lá estão, fazendo com que o ingresso de um jovem de lá na faculdade seja visto com surpresa. Fico muito feliz quando vejo que um(a) amigo(a) ultrapassou essa barreira e foi capaz de vencer, com muito esforço, mesmo contra todas as estatísticas e expectativas depois de ter estudado em um colégio onde cantavam "Uh, lixeirão, entra burro e sai ladrão". O Caramujo na verdade nada mais é que um bairro localizado em uma área que constitui o chamado "mar de morros", que se caracteriza pela sucessão de vales e colinas de baixa altitude, bem como a ocupação de encostas pela escassez de áreas planas. 

         Cresci feliz, em um bairro que atendia a todas as minhas necessidades me repleto de ótimas pessoas, mas com o passar dos anos vi as coisas mudarem. Já não se podia chegar da rua a qualquer hora, não se podia ir a qualquer lugar, não se podia falar o que quisesse, em alguns momentos nem vestir o que quisesse. Eu vi locais que antes eram pontos de brincadeiras se tornarem pontos de vendas de drogas, eu vi rostos conhecidos na rua se tornarem rostos conhecidos das manchetes do Jornal São Gonçalo e O Fluminense, eu vi amigos queridos se tornarem amigos saudosos com um fim trágico.

     Mas principalmente eu vi a esperança de um povo que acredita que os bons ainda são maioria, a fé de um povo que não deixa de ir trabalhar, estudar ou orar porque o bairro está perigoso. Eu já tive vergonha de dizer onde morava, já falei que era do Fonseca, já tive que escutar "Au au au, vai descer quem mora mal" depois de voltar de um passeio do colégio, já tive que escutar minha mãe me mandando calar a boca quando eu começava a falar do bairro no meio da rua. Mas eu era feliz. Acho que para as pessoas que cresceram na mesma época em outras comunidades tem sentimentos parecidos. Bezerra da Silva, no ano de 1992 já dizia em sua música Eu sou favela a frase:

"A favela nunca foi reduto de marginal. 

Ela só tem gente humilde marginalizada,

E essa verdade não sai no jornal.

A favela é um problema social."

     Ainda não posso declarar que sou um vitorioso na vida, ainda não posso voltar no bairro onde cresci e tentar servir de exemplo para os jovens de lá, mas espero chegar a isso algum dia. Não serei um jogador de futebol reconhecido internacionalmente, um ator global e nem um astro do rock, mas um cidadão de bem, trabalhador e pai de família, espero que isso seja o suficiente. Sei que me diferencio muito da maioria deles, na forma de falar, me vestir, pensar, no gosto musical e em muitos outros aspectos, mas hoje eu tenho um respeito maior por essas diferenças. Reconheço que suas características são o resultado de sua criação e sei que isso é cultural, mas eu ainda fico triste em ver as limitações impostas a eles, tanto por eles mesmos quanto pelos outros.

     No dia 14 de julho de 2013 o pedreiro Amarildo de Souza foi assassinado por policiais da UPP da Rocinha. Ele, infelizmente, é mais um entre os muitos casos que retratam a violência contra os moradores de comunidades, que precisam suportar abusos de autoridades constantes, nos levando a não saber mais a quem devemos temer: se aos bandidos ou se a polícia. Não deveriam existir tiroteios ou operações violentas de invasão nestas comunidades, mas sim estratégias inteligentes que resultem em prisões e apreensões. Se for pra viver em um mundo onde eu posso ser baleado a qualquer instante em qualquer lugar que eu vá, então é melhor dar uma arma para cada cidadão e mandar que eles se virem... Mentira! Isso não seria melhor, mas é a impressão que se tem às vezes.

     A UPP foi uma iniciativa boa, sim, mas apenas ela não é o suficiente! Um remédio que apenas ameniza a dor não resolve o problema, é preciso tratar os sintomas. Da mesma forma, é necessário dar melhores opções de educação e lazer para os jovens, assim, o tráfico e as próprias drogas serão vistos como empecilhos e não como uma oportunidade de renda ou fuga para a felicidade. É óbvio que os jovens que entram para o tráfico sabem que terão pouco tempo de vida, mas se essa é a única chance que eles enxergam para alcançar o tal padrão que eles assistem na TV, fica difícil esperar outra atitude que não aderir ao movimento. Mas ainda existe esperança.

     Morar no morro não significa ser bandido, morar na favela não significa ser favelado, e um dia, morar no complexo não deixará ninguém complexado. Estamos prestes a eleger nosso próximo governador, que mais do que votar, nós possamos aprender a cobrar, afinal de contas, o governador nada mais é que um funcionário público que deve prestar um serviço a comunidade. Se eu tenho um empregado que ganha mais do que eu, acho que no mínimo eu vou querer que ele exerça um bom trabalho. Vamos mostrar o que nós queremos, mostrar que é o povo quem manda nesse país e que o nosso poder não termina depois do segundo turno das eleições. Sem mais, encerro essa exposição da Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

Com contribuição de: Caroline Macedo